Cacos Metafóricos

 

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Engraçado essa coisa de se notar feito aos pedaços. Um todo repartido, sabe-se lá em quantos cacos. Ser assim me parece bom negócio, em certo ponto até alivia. Porque, pensa comigo, mesmo que alguns traumas bobos te dilacerem vez ou outra, quase ao ponto de te matar, ainda assim, outras partes tuas permanecem intactas. Mesmo que a razão te traia por dois segundos, ainda assim teu coração manda seguir. E vice-versa.

Como se fôssemos uma casa feita de muitos quartos, mas de portas que não dão uma pra outra. Meio que como um trem de infinitos vagões, mas com janelas que só se abrem pra paisagem. Sofrer parece dar até menos trabalho. Viver feliz, nem se fala. Os estragos nunca vêm em cadeia. E assim fica tão mais fácil consertar-se, juntar os pedaços, já imaginou?

É como se o equilíbrio fosse inevitável. Nem muito pesado aqui nem levíssimo lá. Nada capenga. Tua vida na medida. Fragmentos que não se conversam ou elementos que se protegem. Muitos num só ou apenas um querendo sobreviver. Não sei, só sei que é melhor assim.

 

 

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‘Pra falar de tolerância
e acabar com essa distância
entre nós dois’

Ana Carolina

 

Professou sua fé sem dialogar,
boca muito aberta, ouvidos fechados,
com receio de ver o outro se expressar.

Falou sem ouvir,
acreditou sem dividir,
viveu de discursos alheios repetir.

Enxergou no contrário, adversário.
Excomungou a diferença.
Embora vasto fosse o mundo,
só lhe bastava a sua crença.

Reproduziu a intolerância,
confundiu tudo e propagou a ignorância.
Cabeça baixa, olhos no chão.
Foi capaz de tanta coisa,
mas de aceitar que ao seu redor
coexistiram outras verdades…
Ah, isso não!

Viveu só. Mudo e só.
Pensou que fora chamado, a vida inteira, de intransigente
pela crença que carregava, mas não.
Fora chamado assim pelo medo absurdo de encarar
outras crenças de frente.

Assim até eu. Meu querido, até eu!

 

 

 

 

 

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‘Eu sempre havia precisado
de silêncio para escrever,
porque minha mente atendia
mais à música que a escrita’.

Gabriel García Márquez

 

Acho de um altruísmo tão genuíno esse desprendimento todo da música. Essa coisa de uma só vez te emprestar os ombros, as mãos, raciocínio, refrão, dimensões. Bastam alguns acordes e parece que o mundo é inteiramente teu.

Tem dias que é canção embalando teus reflexos com a bossa nada nova do desaconchego. Em que a música afina tuas notas com as rimas constrangidas de um coração sem paz. Mas tem outros em que ela te deixa repetir aos berros as melhores estrofes, sentindo o perfume, recontando os passos, revivendo pessoas e repassando as letras de um passado sem fim.

São composições de instantes em que o ritmo te faz festejar amores tropicálias. Pout-pourri das nossas histórias. Rock da paixão mais punk. Zouk do meu bem. É a vida que entra pelos ouvidos sem pedir licença.

Dois pra lá.
Dois pra cá.
la la la la
Som, melodia e música,
benditos sejam!

 

(A ilustração veio lá do 180 Cartazes para Sair da Fossa)

 

 

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Tu bem sabes que por aqueles dias a gente já não se fazia mais tanta questão assim, não é? Mas não foi só isso, nossos desinteresses não pararam por aí. Foram mais longe que a nossa boa vontade permitiu. E quando dei por mim, a tua música preferida já não me fazia mais efeito. Eu já não tentava dançar nem tirar os pés do chão, veja só. Eu havia perdido o ritmo, a harmonia, a cadência. Eu não conseguia mais te acompanhar.

Quando tentei te tomar em doses ainda maiores, fui todo anestesia. Tudo era silêncio, descompasso e pretérito imperfeito. E os desejos que tu me emprestaste, mandei devolver. Desocupei o guarda-roupa, o bagageiro do carro e os nossos porta-retratos sorridentes da cabeceira escondi. Queimei teus livros com as faíscas dos meus remorsos e não te consultei. Meus sentimentos por ti desequilibraram-se e caíram todos no esquecimento. Acabou o sentido e um mundo inteiro de considerações. Perdemo-nos para nós mesmos.

 

(Esse texto eu fiz em parceria com o menino Matheus Caravina, lá de São Paulo, que escondeu o jogo por um bom tempo, mas agora escreve lindamente aqui.)

 

 

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Como pode a vida sexual dos outros ocupar tanto os teus pensamentos e as tuas preocupações? Embora possa não parecer, não, tu não precisas ter opiniões e julgamentos acerca daquilo que não queres usufruir nem do que não deveria fazer a mínima diferença no teu modo de vida. Se a tua curiosidade se baseia apenas na necessidade de ter o que falar, opinar ou acusar, ela já começou errada, perdeu todo sentido e não vai te fazer bem. Acredite, o mundo vai continuar a girar se tu não emitires os teus discursos, nadinha vai mudar de lugar.

Não que seja incômodo o ponto de vista contrário, as crenças e convicções que permeiam os pensamentos que não se assemelham aos meus, de modo algum. A chatice consiste no fato de tu continuares achando que um conceito e uma verdade anula a outra e que é impossível estar e ser diferente. Não menosprezes assim a coexistência, logo ela, tão palpável, tão prestativa, tão benéfica. Cara, milhões de pessoas ainda conseguem viver sem o aval de quem quer que seja, elas conduzem bem a vida que levam, independente do que defendem os teus princípios e a tua educação. Vivem sem se preocupar com o deus que tu serves, com o que tu fazes com o teu dinheiro, com quem tu andas e com quem tu te relacionas, porque tudo isso nunca vai ser fator determinante de personalidade e caráter de nenhum deles. E só por isso são livres. Só por terem essa consciência, é que eles não questionam a tua sexualidade, tuas doutrinas, teus amores e vivem felizes.

E se cabe aqui um conselho: faça o mesmo! Indague menos, prossiga teus caminhos com os fragmentos que cada um QUER e PODE te oferecer, sem cobrar nada além disso. Sejas paciente e bom. Sejas, sobretudo, sensível e permissivo com as diferenças, vem delas a substância primordial pras nossas relações e pra todo e qualquer convívio saudável.

 

 

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Ei, pequena, vem cá, vem! Chegue mais perto, me diga umas indecências ao pé do ouvido e fique até mais tarde, vai. Me empreste tua companhia, deixe tuas coisas ali em cima, tire os sapatos e termine esse texto comigo! Inverta tuas escolhas por mim, enquanto ninguém repara! Faça do meu corpo objeto dos teus desejos, enquanto eu deixo tu me colocares outra vez na rota dos que sentem fome e me comem pelas beiradas.

Mas não me deixe dúvidas nem me cause medo. Fale sorrindo do teu dia e seja inteiramente despretensão. Me puxe pelos braços, me leve pra dançar. Repasse comigo outros passos, que os meus eu tô cansado de ensaiar. Enquanto isso, ponha a mão aqui, mas sem machucar, tá? Isso, exatamente assim… Agora perca essa vergonha e repita o movimento sem parar.

Mas, querida, não se faça de doida! Nem pense em me deixar sozinho aqui. Espere essa música terminar, que sozinho eu não acerto o tom, o compasso, muito menos teu endereço. Diga que está bem e que meu perfume é o teu preferido. Se abra pra mim, veja que é bom. Faça de um jeito com que eu esqueça toda vida lá fora. E quando a festa acabar, me carregue pra aonde tu fores, que eu tô cansado de ser só. Feche o quarto, apague a luz, deite comigo, brinque de efêmera e repita que vai passar. Mas quando passar, repita que vais voltar.

 

 

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‘Entra pra ver,
mas tira o sapato pra entrar.
Cuidado que eu mudei de lugar
algumas certezas’.

Cícero

 

Talvez um dia eu te perdoe pelos dias de desordem e caos. Pelo tempo fechado que o teu temperamento provocou e pelas janelas que tu deixaste abertas de propósito, só pra eu me molhar. Até porque, mais que eu, tu conheces cada canto dessa casa que deixaste desarrumada, assombrada pelas tuas falhas e corroída pelas tuas inseguranças. Preciso falar do trabalho que deu pra reorganizar?

Não agora, porque me falta pressa, mas até mesmo pela tormenta que foi gostar de alguém que nunca se importou e conseguiu ser alheio ao próprio mundo, talvez eu te perdoe. Se sobrar tempo, ainda me coloco no teu lugar e compreendo melhor teus vinte e dois anos numa mesmice de quase 70 só pra eu te malquerer bem menos, tá? E não se engane, é possível, sim, que eu não mais lembre das tuas frases pela metade, te esqueça por completo e dos teus sorrisos dissimulados eu resgate minhas expectativas, minha alma e meu futuro feliz.

Quem sabe, daqui uns anos, a gente não se encontra por aí, alheios ao passado, distantes de tudo que juntos tentamos ser?! Prevejo, inclusive, maturidade de ambos os lados e bem mais responsabilidade com as palavras, o tato e as reticências. Confesso, me faz até bem imaginar a franqueza ocupando o lugar que outrora fora das nossas tentativas atrapalhadas e de um sentimento egoísta e mesquinho apelidado de amor.

Mas mesmo assim, há o risco de eu nunca te perdoar pelo estrago que fizeste nos meus textos e de ainda te culpar pelo abismo imenso que ficou entre eles e alguma coisa boa que os fizesse sorrir. Porque de todas as camadas e instâncias que tinhas permissão pra bagunçar, esse era o espaço que eu havia reservado só pra mim, era o meu melhor jeito de estar só. Quarto trancado, não permitido pra ninguém vagar. Mas até nele, tu te intrometeste.

E por culpa tua, eles carregaram tuas digitais, codificaram teus traumas, ironizaram teus segredos e se arrastaram atrás de ti por longos e penosos dias. E pra isso não há perdão! Só por isso, juro que eu seria capaz de te condenar por toda vida. Pois ainda que se arrume a casa, se clareie o tempo e se construa um novo futuro, me sobram os cômodos vazios, as fragilidades admitidas e os amores controversos sobrepondo, substituindo e sufocando as felicidades que meus textos nunca mais vão conseguir descrever.

 

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